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domingo, 11 de maio de 2014

Projeto Mais Poesia: "AMAR"

AMAR
de Carlos Drummond Andrade
Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em senho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amar sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.
________________________________________________________________________________________

No processo... O poema está dentro. :)
Engraçado como uma poesia tem o poder de assumir diversos significados de acordo com a nossa experiência, com o momento que vivemos. Olhando para o poema inteiro, após a leitura inicial, vejo que, para mim (e é só sobre o que significa para mim que posso falar), ele parece falar sobre "a criação", o mundo, a vontade de viver e de ser feliz, amando.

Mas não foi isso que percebi da primeira vez que o li, depois de, numa sexta-feira à noite, ter comprado o presente do dia das mães da minha mãe. Fui ao "escritório" procurar um poema para escrever no cartão dela, que foi entregue hoje. Depois de pensar um pouco, fui na "Antologia poética" de Drummond, organizada por ele mesmo. O legal deste livro é que ele é dividido por temática, então fui direto nos poemas de amor para ver algum que parecesse falar sobre o meu relacionamento com a minha mãe. E, neste poema, vi esta mensagem sobre (novamente, minha interpretação!) amar errado e insistir, amar errado e querer continuar amando, exatamente porque se ama!

Com certeza, tenho diferenças em relação à minha mãe, mas uma coisa que nos faz iguais é o amor que sabemos que uma tem pela outra! <3

***FELIZ DIA DAS MÃES!***

*O Projeto Mais Poesia foi uma iniciativa da Juliana Gervason, do canal literário no Youtube e do blog O Batom de Clarice. Infelizmente, a Ju tirou o canal do ar, então não dá mais para ver o excelente vídeo em que ela propôs este projeto. Para ver o post que deu origem ao projeto aqui no Fora da Caixa, clique aqui.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Projeto Mais Poesia: "Hombre que mira la luna"

Seguindo com as nossas poesias, mais Benedetti:



HOMBRE QUE MIRA LA LUNA

Es decir la miraba   porque ella
se ocultó tras el biombo de nubes
y todo porque muchos amantes de este mundo
le dieron sutilmente el olivo

con su brillo reticente la luna
durante siglos consiguió transformar
el vientre amor en garufa cursilínea
la injusticia terrestre en dolor lapizlázuli

cuando los amantes ricos la miraban
desde sus tedios y de sus pabellones
satelizada de lo lindo y oía
que la luna era un fenómeno cultural

pero si los amantes pobres la contemplaban
desde su ansiedad o desde sus hambrunas
entonces la menguante entornaba los ojos
porque tanta miseria no era para ella

hasta que una noche casualmente de luna
con murciélagos suave   con fantasmas y todo
esos amantes pobres se miraron a dúo
dijeron  no más  al carajo selene

se fueron a la cama de sábanas gastadas
con acre olor a sexo deslunado
su camanido de crujiente vaivén

y libres para siempre de la luna lunática
fornicaron al fin como dios manda
o mejor dicho como dios sugiere.

____________________________________________________________________________________


Pessoal, vou fazer assim: vou colocar sempre algum comentário que eu queira fazer também sobre a poesia aqui e vocês comentam embaixo o que acharam, tá?

Bom, percebi com esta poesia que eu realmente não preciso entender todo o significado do texto para poder apreciá-la. Realmente não entendi tudo que tem aí em cima. Isso, no começo, era uma coisa que me afastava desse gênero literário, eu não gostava desta sensação de não entender, me sentia burra... Mas isso vem mudando já há algum tempo e, com este poema eu percebi muito claramente que isso não deve mais ser um problema para mim....


Em primeiro lugar, porque tem muitas palavras do espanhol que eu não conheço (óbvio), e em segundo porque mesmo as que eu conheço às vezes parecem estranhas no contexto, e isso pode ser porque poesia às vezes faz isso mesmo, ou porque eu não entendo o significado completo da palavra na língua.

Uma coisa que eu acho legal no espanhol é esta proximidade que permite que a gente leia (e entenda) mesmo sem ter estudado por muito tempo. Infelizmente, não consigo ler muitas poesias em italiano ou inglês, porque a língua é muito diferente e eu fico na dúvida se a dificuldade é com a língua em si ou com aquilo que o autor quis dizer (poeticamente).

De qualquer forma, mesmo entendendo bastante o espanhol, eu acho até gostoso não entender tudo, porque sei que quando eu estudar mais a língua vou ganhar mais vocabulário e a poesia vai ganhar novos significados para mim.


Muitas vezes, quando se fala sobre livros, principalmente sobre clássicos, se diz que os livros ganham com as releituras (ou melhor, que o leitor ganha...). Portanto, é óbvio (mas não era antes! rs) que isto é potencializado quando o livro não está na sua língua materna. E eu já tenho certeza que este livro é um dos meus clássicos, adoro, adoro e adoro! <3 

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Projeto Mais Poesia

    Eu não sou a maior leitora de poemas, confesso. Mas, de vez em quando, eu gosto de ler algo assim. Nos caminhos da poesia, ainda tenho muito o que descobrir. Sabendo que tem muita gente igual a mim, com essa vontade de colocar mais poesia na rotina, decidi que, a partir deste ano, vou tentar dividir um ou dois poemas por semana com vocês, escolhendo algo do autor que eu estiver lendo.

    Minha fonte de inspiração para este "projeto" foi o canal e o blog de Juliana Gervason, O Batom de Clarice, que, apesar de não ter levado o projeto adiante, deixou um gostinho geral de "quero mais". Estou mencionando o projeto apenas para deixar clara a inspiração, mas não vou fazer um marcador separado para isto, já que aqui no blog já existia um marcador "poesia". Quem quiser procurar todos os post relacionados a isso no futuro, pode ir neste mesmo marcador.


    O que eu estou lendo atualmente (e já há muito tempo, quem acompanha o blog está cansado de ver esse livro aqui! hahaha) é "El amor, las mujeres y la vida", de Mario Benedetti.

    Tentem ler mesmo sendo em espanhol, não é tão difícil quanto parece! Abaixo, um poema dele, que eu li esta semana e do que gostei muito:

LOS FORMALES Y EL FRÍO

Quién iba a prever que el amor   ese informal
se dedicara a ellos   tan formales

mientras almorzaban por primera vez
ella muy lenta y él no tanto
y hablaban con sospechosa objetividad
de grandes temas en dos volúmenes
su sonrisa   la de ella
era como un augurio o una fábula
su mirada   la de él   tomaba nota
de cómo era sus ojos   los de ella
pero sus palabras   las de él
no se enteraban de esa dulce encuesta

como siempre   o como casi siempre
la política condujo a la cultura
así que por la noche concurrieron al teatro
sin tocarse una uña o un ojal
ni siquiera una hebilla o una manga
y como a la salida hacía bastante frío
y ella no tenía medias
sólo sandalias por las que asomaban
unos dedos muy blancos e indefensos
fue preciso meterse en un boliche

y ya que el mozo demoraba tanto
ellos optaron por la confidencia
extra seca y sin hielo por favor

cuando llegaron a su casa   la de ella
ya el frío estaba en sus labios   los de él
de modo que ella   fábula y augurio
le dio refugio y café instantáneos

una hora apenas de biografía y nostalgias
hasta que al fin sobrevino un silencio
como se sabe en estos casos es bravo
decir algo que realmente no sobre

él probó   sólo falta que me quede a dormir
y ella probó  por qué no te quedás
y él   no me lo digas dos veces
y ella   bueno por qué no te quedás

de manera que él se quedó   en principio
a besar sin usura sus pies fríos   los de ella
después ella besó sus labios   los de él
que a esa altura ya no estaban tan fríos
y sucesivamente así
                               mientras los grandes temas
dormían el sueño que ellos no durmieron.


    Obs: "boliche" em espanhol é quase um "cassino" para nós. No meu dicionário diz que é um "estabelecimento dedicado aos jogos de azar".

    =) é lindo, não é? O que eu gosto nos poemas dele, é que ele conta uma história inteira, é quase como ler um conto, então realmente deve ser quase uma "poesia para iniciantes". Fico morrendo de vontade de conhecer a prosa dele. Eu tenho um livro, devo ler este ano, aí volto e conto alguma coisa. O que vocês acharam? Gostaram da ideia?

terça-feira, 5 de março de 2013

Fevereiro 2013 - Livros

Genteee, faiô! rs Eu não li 3 livros este mês, nem 2,5! xD Estou bem metida nas coisas da monografia e o blog só tem tido fôlego porque eu gasto boa parte do tempo livre aqui. Mas as leituras mal se mexeram em fevereiro. (E provavelmente vão se mexer menos ainda em março, já que o prazo da monografia está terminando. Talvez eu nem poste os "livros lidos" deste mês, mas compenso em outros depois, quando eu for uma pessoa "livre".) De qualquer forma, eu ainda estou dentro "da meta" do Desafio Literário. O widget do desafio lá no GoodReads diz que eu ainda estou "on track". Tem ele aqui no layout do blog também, na parte de baixo da coluna da direita.

*
Observação: As ilustrações das capas dos livros não são as das versões que eu tenho aqui em casa. São as imagens que eu gosto mais, dentre as opções que o GoodReads dá para cada título. Quando tem a minha capa, eu seleciono. E, sim, esta é uma cópia clara e deslavada do layout dos posts de Desafio Literário que Carol faz lá no blog dela (cliquem!), o Desopilar. Leiam lá as opiniões dela, o blog é muito massa! Ah! Eu atualizei o post de Janeiro com as capinhas também. ;)

1As Intermitências da Morte - José Saramago
Esse eu terminei de ler bem no comecinho de fevereiro. É muuito legal, dei 4 estrelas no GoodReads ("really liked it"). O engraçado é que todo mundo acha, por causa desse título, que o livro vai ser deprimente ou vai ficar falando filosoficamente sobre a morte (a não ser quem já conhece o autor). Que naaada! O livro é leve, bem-humorado, ótimo! E se você estiver lendo, estiver no começo e pensar: "que nada, tá tudo chato", eu te digo, meu amigo: "calma, melhora!" Isso porque o começo é divertido sim, falando de como as "autoridades" nacionais ou fúnebres (rs) se relacionam com a morte, mas quando chega na segunda metade do livro, quando a morte em si passa a ser a personagem.... Aí é impagável, imbatível. E o final é muito massa. Tem que ler! Quem já é fã do autor deve achar este bem leve e agradável e quem não é... pode começar por este. Vi pela "blogosfera" que esse pode ser um livro bom para conhecer o autor exatamente pelo humor da narrativa. Fiquei com vontade de ler outros livros de Saramago.


2. El amor, las mujeres y la vida - Mario Benedetti
Este livro é... lindo! Com certeza volto depois para fazer uma resenha sobre ele,  vale demais! E olha que eu ainda estou na primeira metade. Isso porque eu paro a leitura e fico contemplando a beleza do que está escrito, faço carinho na página... xD. É bem assim mesmo... É, eu sou uma comédia. Eu sei. :P
[Coloquei o link do nome do autor para a versão em espanhol da Wikipedia, porque tem muito mais conteúdo, já que ele é uruguaio. Mas a página em português também tem umas coisinhas e dá pro gasto para quem não gosta de ler em espanhol.]

3. Pride and Prejudice - Jane Austen
 Estou no fim da primeira metade deste livro e ainda não sei se gosto dele... Isso é esquisito, mas eu sei a que se deve: estou achando a escrita dele bem irregular. Tem umas partes com um humor irônico super-agradáveis (que para mim são as melhores partes deste livro), mas tem também muito rancor nesta sociedade, rs. Sério, Elizabeth (que aparentemente era uma das úúúnicas moças pensantes do reino!) fica o tempo todo pensando mal do Sr. Darcy! Minha filha, desapega! Se ele é tão ruim, foca em outra coisa, oxe... Ok, ok... Quando eu terminar de lê-lo, aviso. Talvez eu até volte aqui para fazer uma resenha, mas não garanto, não... Depende de se eu vou achar ele um saco ou legalzinho. xD

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Carnaval drummondiano

  Eu li este poema no "Amar se aprende amando". É uma crítica suave ao "novo" (agora já antigo) carnaval do Rio. Claro que lá também existe este antigo de que ele parece gostar. Mas não pude deixar de pensar em uma coisa: Drummond ia adorar o carnaval do Recife. :)

Eu, minhas tias lindas e Mainha.

Crédito das fotos: Fernando Rêgo Barros

Obs.: Marquei em negrito a minha  parte preferida. :D

VER E OUVIR, SEM BRINCAR

Ninguém pergunta mais:
-Você vai brincar no carnaval?
Brincar, irmão, quem pode brincar
se perdida foi a idéia de brinquedo?
Alguns ainda perguntam:
-Como é? Vai pular no carnaval?

Então é isso a festa: um pulo
e outro pulo e mais outro? Neste caso,
campeoníssimo seria o João do Pulo.
O que ouço dizer é simplesmente:
-Vai ver o carnaval?
Conclusão, ano 80:
Carnaval
é o visual.

Você não brinca mais,
nem mesmo pula mais
na rua hoje deserta, no salão
onde um suor se liga a outro suor
e ar condicionado é falta de ar.
Que pode o folião? Acaso existe ainda,
e funciona, essa palavra folião?
Folia, antiga dança rápida
que o adufe acompanha, no dizer
de sábio, antigo, dicionário.
Quem me dança a folia, quem folia,
quem fol ou fou, folâtre, folichon, folle,
fool, pratica o foliar?

Ah, sim, o sambista e sua escola
foliando para turistas e a distinta
Comissão Julgadora. Pontos! Pontos!
Quesitos mais quesitos! Briga feia
nessa programação oficial
que garimpa e governa o carnaval.
Foliam para os outros. Não foliam
pelo gosto,
pela graça,
pelo orgasmo de foliar, loucura santa,
desabrochar do corpo em rosa súbita,
em penacho, batuque, diabo, mico,
chama, cometa, esguicho, gargalhada,
a cambalhota em si, o riso puro,
o puro libertar-se da prisão
que cada um carrega em sua liberdade
vigiada, medida, escriturada.

Então pego uma sobra, vou olhar,
ouvir
a cor, o som, o balancê padronizado
que rioturisticamente se oferece
ao mercado da vista e dos ouvidos.
Eu vejo, não me integro,
não participo, não sou o grande todo,
nem o grande todo é mesmo todo e tudo.
Entre o olho e o desfile,
a arquibancada corta o meu impulso
de ser um com eles, ir com eles
pela rua afora,
pelo sonho afora.

A rua, onde ficou
a velha rua, seu espaço de brincar,
seu aberto salão a céu aberto,
sem entrada paga, sem cambistas
e fiscais?
O carnaval é rua, não teatro,
não show, produto industrial
monumental
a ser consumido numa noite
de lenta evolução
e classes divididas
pelo respeitável público pagante.
Como comprar, como pagar
o que não tem preço e chama-se
alegria?
"A paixão pelo carnaval começa cedo."
Meu beijo aos foliões! :* Este ano vou brincar pouco. Mas talvez a gente se encontre por aí...

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

"Amar se aprende amando" de Drummond

 Ano passado eu fiz aqui uma resenha do livro "Amor Natural", de Drummond. Eu não gostei daquele livro e também não gostei muito deste, vou logo avisando. Porém, apesar de ser o mesmo autor, os estilos são completamente diferentes: aquele eu achei uma baixaria só e esse tá longe disso. É importante dizer logo que eu não sou uma grande fã de poesia em geral, mas continuo tentando. Vi recentemente uns vídeos sobre poesia do excelente canal (que eu conheci a pouco) da Juliana Gervason e talvez eu não devesse ter "começado" esta empreitada com o Drummond, posso estar sendo injusta, talvez eu ainda não tenha a sensibilidade necessária para este livro. Ou talvez ele seja só chato mesmo...

"Por fora...

 Dei só uma estrelinha no GoodReads ("didn't like it") :( . Tem 3 poesias que eu achei *sensacionais* e outras 7 de que eu gostei muito, mas o livro tinha um total de 68 poesias, isso dá um aproveitamento pífio de aproximadamente 15%!! (eu e minhas estatísticas...) Talvez eu esteja sendo muito  rigorosa, já que gostei de algumas partes das outras 58. Mas não mexeram comigo, entendem? E poesia é sentimento...

 O que realmente me incomodou é que este livro está cheio de poesias para pessoas que só ele conhecia, louvando aniversariantes e festas de casamentos, bodas... Que saco, Drumminho! #íntima rs. Sinceramente, até agora gosto muuuito mais das poesias de Camões ou Mario Benedetti...

Mas vou ser justa: as raras poesias de que gostei, são excelentes! Ele nos brinda com seu estilo delicado de cronista e nos mostra a beleza nas coisas mais simples. Isso é, na verdade, o que eu mais gosto na escrita dele, enquanto prosador. Fico até triste de não gostar das suas poesias e vir aqui falar isso, sinto que estou fazendo um desserviço danado, afinal é um autor que eu adoro... Mas nem "O Amor Natural" nem "Amar se aprende amando" estão entre seus livros poéticos mais antológicos, então pretendo ler ainda "A Rosa do Povo" e "Sentimento do Mundo" e se eu não gostar deles dois nunca mais leio um livrinho sequer de poesia desse homem!! kkk 

Já das crônicas eu sou fã, qualquer dia desses resenho "Moça Deitada na Grama", quando eu o reler. Já prometi isso em um comentário da última resenha.

Abaixo, uma das minhas poesias preferidas deste livro: Nova Rua São José. Foi difícil escolher qual colocar aqui porque eu adorei também outras duas: A amiga voltou e Liquidação de inverno.

NOVA RUA SÃO JOSÉ
Cultivando o prazer de andar a pé,
tiro dos meus alforjes lexicais
o mais puro louvor a Gildo Borges,
renovador da rua São José.
Quem ali passa logo se detém,
senta no banco (banco de sentar,
não de pagar imposto e duplicata)
e escuta, embevecido, uma sonata.
De que piano vem, música errante,
se não vejo instrumento musical?
Vem de sentir no ar essa aliança
entre a cidade e a forma natural.
É pedaço de rua, por enquanto,
mas nele se devolde à criatura
o pouso, a paz, a pomba, o pensamento
de existir, existindo com doçura.
Em seus vasos, a múltipla folhagem,
ainda tímida, pede-nos licença
para ofertar sua presença
consoladora do monstro-garagem.
A flor, em flor, na rua -- que convite
ao passante angustiado: "Pára um pouco.
Dez ou quinze minutos de far-niente
E voltarás depois ao mundo louco.
Mas voltarás de cuca restaurada,
alma leve, levando na lembrança
um bailado de asas e a dourada
alegria da hora lenta e mansa.
Aqui não te persegue carro trêfego,
maléfica fumaça, rumor túrbido,
aqui encontrarás paradisíaca
pasárgada de pobre e milionário.
Aqui é teu domínio; aqui és rei
de teu nariz, das nuvens e das aves,
e fruirás o simples estar quieto,
erigindo o relax em tua lei."
Assim murmura a flor, e corre a brisa,
"Apoiado" ciciando ao perpassar,
enquanto São José, na sua igreja,
e Tiradentes põem-se a meditar
(pois estátua medita) e os dois reunidos
aprovam Gildo Borges e seu sonho
de tornar a cidade mais humana
e cada ser humano mais humano.

Este foi o terceiro livro que terminei de ler este ano. Para ver os outros posts do desafio literário, cliquem no marcador abaixo. :)

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Janeiro 2013 - Livros

Cá estou eu para falar brevemente sobre os livros lidos neste janeiro. Foram só três, mas isso é até mais do que o que eu "precisava" fazer pelo desafio (hahaha acho isso muito engraçado), que era 2,5 por mês. Claro que esse mês foi o mais fácil pois os dois primeiros livros eu já estava lendo em 2012 e o terceiro foi um livro de poesia.

1. A Christmas Carol - Charles Dickens
Sim, sim. Aquela historinha que todo mundo conhece de outros Natais. Fazia alguns anos que eu queria ler este livro no Natal (eu adoro o Natal!), mas sempre tava agarrada com outros livros. Adorei a escrita de Dickens e com certeza teria lido de uma "sentada" se fosse em português, mas eu sou uma pessoa lentinha lendo em inglês. Fiquei curiosa para ler outros livros dele feliz por ter entendido muito mais do que eu achava que entenderia de um inglês tão antiguinho... Na verdade nem é tão antigo assim, mas, sei lá, vocês também não têm um medinho de ler um livro de Dickens no original não? Eu tinha. E perdi ^.^ Lendo os comentários no GoodReads, fiquei impressionada como esse livro é amado: uma mulher comentou lá que ele é lido todos os anos em sua casa durante a época de Natal, tipo uma tradição de família mesmo. Dei 4 estrelinhas.

Eu não sei... Eu tenho dificuldade de ler poesia e estou tentando mesmo assim. Talvez o problema seja comigo, mas não gostei do livro. Apesar disso, eu achei que ele merecia uma (pequena) resenha que aparecerá aqui em breve. Só dei uma estrelinha.







3. O Economista Clandestino - Tim Harford
Adoro dizer que eu me sinto mais esperta depois de ler este livro. Claro, ele não é uma coisa do outro mundo em termos de brilhantismo, mas me fez abrir os olhos para algumas verdades do comércio, principalmente das grandes cadeias de supermercados. Em alguns momentos, porém, achei ele meio maçante. Mereceu 3 estrelinhas.

Adorei o capítulo sobre a China.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

"O amor natural" de Drummond

Faz cara de intelectual, mas tou ligada na sua...

   Eu adoro o Drummond. Há muito tempo. Mas eu não sou a fã número um de poesia. Eu sei, eu sei! Horrível isso. Já tentei, gente. Já li um pouquinho de diferentes autores. Mas, em geral, não é para mim! Posso até depois escrever sobre os poetas de quem gosto, vai que as outras pessoas que têm resistência com poesia gostam dos mesmos, né?
  Então, eu sou fãzona, mas gosto mesmo das crônicas. Daí eu peguei um livro do meu pai, que é fã dele como cronista E poeta. Chama-se "O amor natural", um livro de poemas eróticos. Eu já li vários poemas políticos ou líricos dele, vai que vendo outra faceta eu mudava de idéia... Pessoal! Drummooond!! O que é aquilo, hein? Não vou nem comentar a minha opinião sobre as poesias deste livro porque eu gosto de Drummond e gosto de gostar dele, rs.


A capa do livro aqui de casa.


Tá booom, eu dou a minha mais sincera opinião. Achei quase todas pornografia barata. É isso mesmo! Sinto muito, Drummond, mas é o que eu pensei, oras. E nem resmungue porque este é o meu blog. (Mas os caros leitores podem resmungar nos comentários!) Tem até algumas minimamente inspiradas, mas da maioria eu decididamente não gosto.
 Mas eu sou uma pessoa Copo-Meio-Cheio e trouxe para vocês a melhor poesia que eu encontrei no livro. É, nem todas eram tão ruins... Mas a maioria era! 

 OH MINHA SENHORA Ó MINHA SENHORA
"Oh minha senhora ó minha senhora oh não se incomode senhora minha não faça isso eu lhe peço eu lhe suplico por Deus nosso redentor minha senhora não dê importância a um simples mortal vagabando como eu que nem mereço a glória de quanto mais de... não não não minha senhora não me desabotoe a braguilha não precisa também se despir o que é isso é verdadeiramente fora de normas e eu não estou absolutamente preparado para semelhante emoção ou comoção sei lá minha senhora nem sei mais o que digo eu disse alguma coisa? sinto-me sem palavras sem fôlego sem saliva para molhar a língua e ensaiar um discurso coerente na linha do desejo sinto-me desamparado do Divino Espírito Santo minha senhora eu eu eu ó minha senh... esses seios são seus ou é uma aparição e esses pelos essa nád... tanta nudez me deixa naufragado me mata me pulveriza louvado bendito seja Deus é o fim do mundo desabando no meu fim eu eu..."

   Vixe, deu muito trabalho copiar isso por causa da falta de pontuação. Essa poesia eu achei realmente criativa, não é vulgar e é até engraçada. Engraçado que o prefaciador (Affonso Romano de Sant'Anna, alguém conhece alguma coisa dele?) adivinhou que leitores como eu não iam gostar muito: "'Àqueles que se habituaram a ler suas crônicas ironicamente suaves e a tê-lo como o velho poeta meio tímido e simpático, este livro pode incomodar. (...) Para esses o livro poderá parecer pornográfico." Seu Affonso, o senhor me adivinhou!

Capa da terceira edição. Acho que era da primeira também. 

Quem mais ama o Drummond? Que faceta vocês mais apreciam? Gostam de poesia? E de poesia erótica? Consideram isso uma resenha? rs Se abram!